Uma cor expressiva

Eleito o queridinho da geração Millennial, o tom rosa atual funciona como um catalizador de ideias caras ao século 21, como liberdade de expressão e restauração das relações de afeto.

Um rosa novo, que mistura tons de blush, salmão e coral, carrega significados para além da estética como flexibilização dos conceitos de gênero. Na moda, a cor transmite a ideia de descontração de maneira sofisticada e atual, e é eleita tanto pelo jovem público da geração Y quanto por musas da maturidade como Twiggi.

Em tempos de conexão full time, a explosão do rosa millennial, cor que é um misto de salmão, blush e coral e tem sido explorada não só no universo da moda como também em arte, design e decoração, fala mais sobre comportamento que imagina nossa vã filosofia.

“Eleito num primeiro momento pela geração millennial (os nascidos a partir da década de 1980 e crescidos em meio a grandes avanços tecnológicos), o tom ganhou fama como estandarte do conceito genderless (ou sem distinção de gênero), da fluidez sexual, dos movimentos relacionados ao feminismo, à flexibilização dos conceitos de masculinidade e à luta pelos direitos LGBT. Aborda ainda o desejo pela restauração das relações de afeto, amor, carinho e conforto que muitas vezes ficam em segundo plano na era da conectividade em que vivemos, imersos em sistemas de interação virtual em detrimento do real”, resume Anita Rezende, consultora de estilo e especialista no estudo das cores.

Se a carga política é forte, o apelo da cor também remete ao passado. Em parceria com a Puma, a diva pop Rihana criou Fenty, coleção apresentada na última edição da Paris Fashion Week em que a cor é a grande vedete. A inspiração, conta ela, é o romantismo francês do século 18, “como se a rainha Maria Antonieta em pessoa fosse escolher peças para vestir no cotidiano atual, para frequentar a academia”.

Entre os modelos há calçados (chinelos, tênis e botas) e vestuário (cropped, tops, jaquetas, mole- tons e calças), tudo carregado da mistura de tecidos extravagantes e de detalhes icônicos como laços, babados, plissados (já à venda no Brasil).

Na crista da onda

Anita lembra ainda que o millennial pink remete à nostalgia, num resgate não só da estética dos anos 1980, 1990 e 2000, quanto do período entre guerras, de 1920 a 1940, quando a estilista Elsa Shiaparelli criou e eternizou o rosa shocking e as mulheres começaram a ousar nas cores do vestuário.

“Definitivamente, o tom é o eleito deste inverno. Na produção, também faz sucesso por chamar a atenção para determinados pontos, passar sofisticação quando associada a outras cores e dar a impressão de alongar a silhueta”, sentencia a consultora de estilo.

O matiz também é destaque no filme O grande hotel Budapeste, colorindo todo o edifício em que ocorre a trama no longa de Wes Anderson, de 2014, que retrata as mudanças na Europa a partir da década de 1920. Hoje, na decoração, disputa espaço com o verde grennery, eleito pela Pantone como a cor de 2017. “Antes, os tons de rosa eram usados por mulheres que queriam passar a ideia de doçura, meiguice. Hoje, a cor fala muito mais de emancipação. Essa mudança é ainda percebida como desejo de permanência da juventude, período em que se emana pensamentos alegres, criativos e despretensiosos, em contraponto ao amadurecimento, em recusa a uma postura mais austera”, discorre a profissional.
Nas passarelas, grifes internacionais como Balenciaga, Céline e Valentino apostaram no tom nas coleções para o inverno 2018. Nas ruas, ícones de estilo como Twiggy, modelo dos anos 1960 que hoje está com 67 anos, tem a imagem viralizada na Internet quando usa peças na cor. Aqui, em BH, Arte Sacra, Cajo, Fedra e Luiza Barcelos, entre outras marcas, criaram modelos explorando o já famoso millennial pink. “A cor remete à leveza, à doçura e a boas recordações. Avalio o tom como chique e moderno, e acredito que está super em alta para casamentos diurnos ou destination weddings”. Concorda Carolina Maloy, diretora criativa da Arte Sacra, que aposta na cor para garantir leveza e um caráter romântico e minimalista à produção.

No segmento calçados e acessórios, o tom também faz sucesso. Márcia Barcelos, da grife Luiza Barcelos, que o diga. “A cor vai bem tanto em modelos mais clássicos como escarpin, mules e meia-patas, como em propostas atuais, a exemplo de clutches, loafers, flatform, botas e oxfords. A matéria-prima envolve camurça e couro (também envernizado), em combinações inusitadas com materiais como cortiça, metalizados e couro de cobra. Na minha opinião, é um tom que deixa o visual descontraído de maneira sofisticada e atual”, define a designer.

ABUSE DA COR NA TEMPORADA

SEGUNDO A CONSULTORA DE ESTILO ANITA REZENDE, ESTILISTAS E DESIGNERS OUVIDAS NA REPORTAGEM, O MILLENNIAL PINK PODE E DEVE SER USADO SEM RESTRIÇÕES JÁ QUE É UM TOM QUE CARREGA APELO CULTURAL E EMOCIONAL. A SEGUIR, CONHEÇA COMO O TOM PODE INCREMENTAR O VISUAL.

» Em acessórios ou em parte do look, funciona como pontos de luz
» Acompanhado de outras cores, transmite sofisticação
» Mais claro e em peças de cortes mais retos é contemporâneo
» Por conter pigmento azul (uma cor fria e tranquila), cria a ilusão óptica de alongar a silhueta
» O preto ajuda a dar peso ao visual Metalizados em geral caem muito bem com o rosa
» Combinado com vermelho ou laranja, passa a ideia de força, jovialidade e energia
» O tom pastel é bem acompanhado de azul-marinho, preto e marrom